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Do grafite à rima, evento cultural do CNJ mobilizou unidades socioeducativas na quinta edição

Uma música criada para pedir desculpas. Um mural com lembranças da infância. Uma batalha de rimas no palco de um teatro. Oficinas de grafite, poesia e breaking. Ao longo de três dias, adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas em mais de cem unidades socioeducativas nas 27 unidades da federação apresentaram produções artísticas e compartilharam suas histórias na 5ª edição do Caminhos Literários no Socioeducativo, O evento é realizado desde 2022 pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), por meio do programa Fazendo Justiça. Com o tema “Resistir em batida, verso, corpo e traço”, a edição de 2026 colocou a cultura hip-hop no centro da programação. Depois da abertura, o evento continuou com atividades presenciais e virtuais. Houve atividades em museus, teatros e outros espaços culturais, com batalhas de rima, oficinas, apresentações musicais, saraus, cineclubes, podcasts e encontros com artistas. “O Caminhos Literários reafirma que toda trajetória pode ser transformada quando há acesso à cultura, à escuta e à criação. Nosso papel é garantir oportunidades para que esses adolescentes ocupem espaços e possam sonhar com um futuro diferente”, explicou o coordenador adjunto do Departamento de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e do Sistema de Execução de Medidas Socioeducativas (DMF), desembargador Ruy Muggiati. Caminhos pelo território No dia 3 de julho, o evento saiu das telas e ganhou as ruas. No Ceará, o Teatro Carlos Câmara, em Fortaleza, recebeu cerca de 40 adolescentes de diferentes centros socioeducativos, que apresentaram dança, rap, poesia, slam e uma batalha de rimas conduzida pela adolescente Lorena*, de 16 anos. “Isso aqui é uma oportunidade que abre inúmeras portas para nós do socioeducativo”, afirmou. “Aprendi muitas coisas com o professor. Ele fala uma linguagem que a gente entende e ensina de um jeito muito fácil. Quero aprofundar meus conhecimentos e me tornar um profissional nessa área”, contou o adolescente Lucas* depois de uma oficina de grafite no Tocantins. Em Pernambuco, Felipe*, de 14 anos, encontrou nas atividades de poesia e dança uma nova maneira de se expressar. “A experiência foi muito interessante. Acredito que, com a arte, podemos falar sobre nossas vidas.” Para Bruno*, de 18 anos, a troca aconteceu nos dois sentidos: “Gostei da experiência de hoje, porque sinto que aprendemos com eles e eles aprenderam com a gente”. Histórias produzidas dentro das unidades Nos dias 7 e 8, adolescentes apresentaram, na Mostra Cultural do Socioeducativo, produções desenvolvidas ao longo do último ano em linguagens como música, dança, audiovisual e artes visuais. No Distrito Federal, adolescentes da Unidade de Internação Feminina do Gama (Unifg) criaram a música “not”, um pedido de desculpas a uma amiga que também cumpre medida no local. O conflito virou letra, batida e criação coletiva. “A gente fez a música para pedir desculpas, mas também para mostrar que a nossa voz existe e pode chegar nas pessoas”, contou Dandara*, uma das autoras. Carina*, outra participante, resumiu o que a música tornou possível: “Foi importante porque a gente conseguiu falar o que estava sentindo. A música ajudou a dizer uma coisa que talvez fosse mais difícil falar só conversando”. Em Belo Horizonte, adolescentes tiveram um encontro com o MC PDR, da Família de Rua, coletivo responsável pelo Duelo de MCs. O grupo conversou sobre a relação entre o hip-hop e a ocupação dos espaços públicos. Traço, criatividade e conhecimento A programação terminou na quarta-feira (8) com uma oficina conduzida pela grafiteira Lígia Braga, a Cleópatra, do Projeto Movimento e Arte, do Paraná. Na Fundação Casa Chiquinha Gonzaga, em São Paulo, oito adolescentes acompanharam a transmissão da atividade com lápis e caneta colorida. Depois de conhecer o alfabeto no estilo bomb (tipo de letra utilizada no grafite), cada uma criou diferentes versões do próprio apelido, experimentando formatos, contornos e combinações. Adolescentes da CASA Chiquinha Gonzaga participam da oficina de grafite. Foto: Lucas Moura Luana* contou que a atividade se conectou a um interesse antigo. “Eu sempre gostei bastante do grafite, dos desenhos nas paredes e nos prédios. Eu já conhecia o hip-hop e, aqui dentro, aperfeiçoei bastante as minhas técnicas em relação ao letrismo e ao grafite. Eu acho que foi bacana.” Para Amanda*, o único problema foi o tempo. “A gente gostou muito de desenhar. Só ficamos chateadas porque o período foi curto, mas foi bacana demais ver a criatividade e os conhecimentos adquiridos”, conclui a adolescente. Para a coordenadora-adjunta da área socioeducativa do programa Fazendo Justiça, Adrianna Figueiredo, a persidade das atividades é um dos resultados do evento. “O Caminhos Literários não propõe um modelo único de atividade cultural. O que vimos foram adolescentes e equipes construindo programações a partir de seus territórios, repertórios e parcerias. É essa persidade que permite que a cultura vá se incorporando ao cotidiano do socioeducativo, e não apareça apenas como uma atividade pontual”, afirmou. Adolescentes na cobertura Adolescentes de unidades socioeducativas das cinco regiões do país também fizeram a cobertura do Caminhos Literários. Depois de participarem de formação sobre noções básicas de comunicação, eles produziram entrevistas, fotos, vídeos e outros conteúdos sobre a programação em seus estados. No Paraná, um dos adolescentes transformou a cobertura da 1ª Mostra Cultural Voz, Rua e Resistência, realizada no Cense Londrina II, em uma página de jornal. Assinada pelo “Repórter Socioeducativo N.H.S.”, a publicação registrou as batalhas de rima, apresentações e encontros realizados na unidade. Confira a cobertura do 5º Caminhos realizada por tribunais de todo o país: Alagoas, Amapá; Ceará; Paraíba; Paraná; Pernambuco; Rio Grande do Norte; Roraima e Tocantins. *Nomes foram trocados para preservar a identidade dos adolescentes Texto: José Lucas Rodrigues, Leonam Bernardo, Natasha Cruz e Renata Assumpção, com informações do TJCE, TJTO, TJPE e TJPR. Edição: Nataly Costa e Débora Zampier Agência CNJ de Notícias Número de visualizações: 13
13/07/2026 (00:00)
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